Os portugueses leem pouco? A pergunta aparece em conversas, em crónicas e nas pesquisas do Google, quase sempre com respostas apressadas. Para falar de hábitos de leitura com rigor, é preciso olhar para dados oficiais, com ano e fonte.
Este artigo usa apenas números confirmados nas séries públicas da Pordata: quantos livros em língua portuguesa se publicam por ano e como os alunos portugueses se saem em leitura nos testes internacionais. Pelo caminho, junta sugestões de autores portugueses criticados n’O Informador.
O que dizem os números sobre os hábitos de leitura dos portugueses?
A fonte mais citada é o Inquérito às Práticas Culturais dos Portugueses, de 2020. Nas séries da Pordata, há dois números a reter: Portugal registou 13.283 títulos em língua portuguesa em 2025, e os alunos tiveram 462 pontos em leitura no PISA 2025, igual à média da OCDE, mas 36 pontos abaixo dos 498 de 2015.
De onde vêm os números sobre leitura em Portugal
O inquérito de 2020
A fonte mais citada sobre o que os portugueses leem é o Inquérito às Práticas Culturais dos Portugueses, realizado em 2020 pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian. O estudo perguntou diretamente às pessoas o que liam, como liam e porquê, e é a melhor leitura para quem quer o retrato completo.
As séries da Pordata
A Pordata, base de dados da Fundação Francisco Manuel dos Santos, reúne séries longas que ajudam a perceber o contexto. Duas são especialmente úteis: os títulos publicados em língua portuguesa e os resultados dos alunos em leitura no PISA. Não medem diretamente quantos livros cada pessoa lê, mas mostram a oferta de livros e a competência de leitura ao longo de décadas.
Quantos livros se publicam em Portugal
Segundo a série da Pordata sobre títulos em língua portuguesa, originais e traduzidos, Portugal registou 13.283 títulos em 2025. Desses, 10.033 eram originais e 3.250 eram traduções, ou seja, quase um quarto do total.
| Ano | Total de títulos | Originais | Traduzidos |
|---|---|---|---|
| 2008 | 21.177 | 17.379 | 3.798 |
| 2015 | 16.598 | 13.029 | 3.569 |
| 2019 | 12.308 | 9.049 | 3.239 |
| 2020 | 10.279 | 7.486 | 2.780 |
| 2024 | 13.574 | 10.331 | 3.235 |
| 2025 | 13.283 | 10.033 | 3.250 |
O número de traduções é mais estável do que o de originais: andou sempre entre 2.780 e 3.798 nos anos da tabela. O pico da série aconteceu em 2008, com 21.177 títulos. Em 2020, o ano da pandemia, o total desceu para 10.279, o valor mais baixo desde 2005. Desde então houve recuperação, com 13.574 títulos em 2024 e 13.283 em 2025.

Originais e traduções nas estantes
A mistura de originais e traduções nota-se em qualquer pilha de leituras. Do lado português, a crítica de Dias de Outono, de José Rodrigues, sublinha que «o leitor é convidado a conhecer a ruralidade do nosso país». O romance, editado pela Porto Editora, recebeu 4 em 5 n’O Informador.

Do lado das traduções, a crítica de Becoming, A Minha História, de Michelle Obama, abre sem rodeios: «Fantástico é a palavra que melhor descreve o livro Becoming, de Michelle Obama!». A edição da Objectiva tem 480 páginas e recebeu 5 em 5.

Como leem os alunos portugueses
O PISA, da OCDE, avalia a competência de leitura dos alunos em vários países. A série da Pordata com os resultados no PISA em leitura dos alunos residentes em Portugal mostra uma subida até 2015 e uma descida desde então.
| Ano | Portugal | Média OCDE | Média UE27 |
|---|---|---|---|
| 2000 | 470 | 493 | 485 |
| 2015 | 498 | 492 | 486 |
| 2018 | 492 | 489 | 481 |
| 2022 | 477 | 476 | 469 |
| 2025 | 462 | 462 | 452 |
Em 2000, Portugal estava 23 pontos abaixo da média da OCDE. Em 2015 chegou aos 498 pontos, acima dessa média. Em 2025 ficou nos 462 pontos, igual à média da OCDE e 10 pontos acima da média da UE27, mas 36 pontos abaixo do seu melhor resultado.
Vale a pena notar que em 2018 Portugal ainda estava acima da média da OCDE, com 492 pontos contra 489. A descida entre 2018 e 2025 acompanha a das médias internacionais, que também recuaram no mesmo período. Ou seja, o problema não é só português, mas a distância face a 2015 é real.

O que estes números dizem sobre os hábitos de leitura dos portugueses
Publicar mais títulos não significa que se leia mais, e um teste escolar não mede o prazer de ler. Ainda assim, as duas séries contam uma história coerente: a oferta de livros recuperou depois de 2020, enquanto a competência de leitura dos alunos recuou face a 2015.
Para saber quantas pessoas leem, quanto leem e porquê, a referência continua a ser o inquérito de 2020. As séries da Pordata servem de pano de fundo e ajudam a perceber se o retrato melhora ou piora de ano para ano.
Autores portugueses para ler já
A melhor forma de mudar as estatísticas é pegar num livro. Estes autores portugueses foram criticados n’O Informador, com a classificação publicada em cada crítica.
| Livro | Autor | Editora | Páginas | Classificação n’O Informador |
|---|---|---|---|---|
| Apneia | Tânia Ganho | Casa das Letras | 696 | 5 em 5 |
| Fúria Mortal | Bruno M. Franco | Suma de Letras | 544 | 5 em 5 |
| A Morte do Papa | Nuno Nepomuceno | Cultura Editora | 352 | 5 em 5 |
| Almoço de Domingo | José Luís Peixoto | Quetzal Editores | 264 | 4 em 5 |
| As Coisas Que Faltam | Rita da Nova | Manuscrito | 256 | 4 em 5 |
Há opções para vários gostos. Quem procura um romance intenso tem a crítica de Apneia, de Tânia Ganho, e quem prefere suspense tem a crítica de Fúria Mortal, de Bruno M. Franco, ou a crítica de A Morte do Papa, de Nuno Nepomuceno.
Para leituras mais curtas, vale a pena a crítica de Almoço de Domingo, de José Luís Peixoto, e a crítica de As Coisas Que Faltam, de Rita da Nova. A lista completa está na página de autores com críticas publicadas n’O Informador.

Onde encontrar livros sem gastar muito
As bibliotecas municipais e a Biblioteca Nacional de Portugal são o primeiro passo para quem quer ler mais sem gastar. A Feira do Livro de Lisboa é outro ponto de encontro entre leitores, como se conta no texto sobre o encontro de leitores de Danielle Steel na Feira do Livro de Lisboa.
Perguntas frequentes
Quais são os hábitos de leitura dos portugueses?
O retrato mais completo está no Inquérito às Práticas Culturais dos Portugueses, realizado em 2020 pelo ICS da Universidade de Lisboa com a Fundação Calouste Gulbenkian. As séries da Pordata completam esse retrato com dados anuais sobre livros publicados e resultados dos alunos em leitura.
Quantos livros leem os portugueses por ano?
Essa pergunta só tem resposta em inquéritos à população, como o de 2020 do ICS e da Gulbenkian. Os dados da Pordata não medem livros lidos por pessoa, mas mostram que em 2025 foram registados 13.283 títulos em língua portuguesa.
Quais são os hábitos de leitura em Portugal entre os jovens?
Segundo a Pordata, os alunos portugueses tiveram 462 pontos em leitura no PISA 2025, igual à média da OCDE e acima da média da UE27. O melhor resultado foi em 2015, com 498 pontos.
Os portugueses leem pouco?
Depende de como se mede. A oferta de livros recuperou depois de 2020 e os alunos estão na média da OCDE em leitura, mas abaixo do seu melhor resultado de 2015. Para saber quantas pessoas leem, a referência é o inquérito de 2020.





