Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O Informador

22
Mai20

Hollywood, uma série cinematográfica

Netflix

hollywood.jpg

 

Uma nova série de Ryan Murphy e Ian Brennan estreou na plataforma Netflix e o chamamento logo surgiu, dando por mim a achar por diversas vezes que estava a assistir a um bom filme, uma vez que Hollywood é daquelas séries tão bem conduzidas pelo texto, com o cuidado da fotografia e com um elenco tão composto que podia ser transformada numa grande película porque a qualidade cinematográfica está presente ao longo dos sete episódios desta primeira temporada que conquistou. 

Recordando grandes nomes da indústria de Hollywood através dos diálogos, esta série prima pela audácia de tocar em pontos fortes abafados ao longo de anos. Numa época recheada de preconceitos e discriminações, muitos queriam alcançar o estrelado no célebre passeio da fama, mesmo que para isso tenham caído em redes de promiscuidade, abusos e podridão para seguir sonhos e estatutos que nem sempre foram levados a sério. Mostrando que o complicado de atingir é o mais apetecível, nesta série o destaque nos grandes filmes da época era a grande conquista, mesmo que muitos tivessem de chafurdar em mundos obscuros de chantagem e submissão que aconteciam com o conhecimento de muitos mas que todos davam como procedimentos desconhecidos em busca da fama e do sucesso.

Na série Hollywood são apresentados jovens aspirantes a ator a procurar o seu lugar, aproximando-se de nomes firmados do grande cinema para conseguirem respirar em audições num universo competitivo e só os que davam muito nos bastidores conseguiam conquistar o seu pequeno lugar. Nesta série os esqueletos guardados no armário de grandes homens influentes ganham destaque, mostrando o aproveitamento pelos jovens aspirantes que se submetiam a festas de prazer sexual para conseguirem chegar a algum lado. Muito se tem falado nos últimos anos desta problemática dentro do poder dos homens influentes do cinema para com as jovens atrizes, no entanto a homossexualidade sempre existiu e muitos dos que conseguiram os seus triunfos também caminharam por quartos, escritórios e hotéis para antes dos contratos assinados iniciarem os seus favores a quem lhes deu trabalho posteriormente. 

Abuso, assédio, machismo e preconceito são pontos em destaque nesta produção que além da prostituição, poder de influência e racismo mostra as reviravoltas que os pequenos conseguem fazer acontecer quando percebem que ultrapassaram os patamares a que foram sujeitos e passam de rejeitados e aliciados a heróis que não precisam de se sujeitar a influências para conseguirem os seus trunfos. Claro que ao longo de cada episódio as audições, teste de imagem, ensaios, reuniões de produção e gravações vão sendo mostrados, num misto entre a realidade idealizada e a de submissão. 

19
Mai20

Valéria, dos livros para a Netflix

valéria.jpg

 

Valéria, a série espanhola produzida pela Netflix e que foi inspirada no sucesso literário Nos Sapatos de Valéria, da autoria de Elísabet Benavent, vai muito de encontro ao sucesso O Sexo e a Cidade, mostrando as aventuras do dia a dia de quatro amigas, onde Valéria acaba por ser o centro das atenções.

Valéria, uma escritora de romances em busca de inspiração e com um casamento outrora feliz mas à beira de cair numa rutura inevitável, passa por uma crise pessoal existencial, procurando novas aventuras. Tudo isto enquanto as amigas vivem as suas relações e problemas partilhando os seus momentos entre si através dos encontros que vão mantendo. Entre encontros com um homem casado, uma apaixonada por um colega de trabalho e a homossexualidade escondida, estas são as bases que ficam em destaque nas vidas de Lola, Carmen e Nerea, respetivamente. 

Debatendo os vários tipos de relacionamentos sem complexos e de forma liberal mostrando a forma com que cada destas quatro amigas se liga com as relações. Num enredo visto por completo do lado feminino e debatendo essencialmente a infidelidade, homossexualidade, liberdade sexual e as relações dentro do meio laboral, Valéria é daquelas séries bem leves, com excesso de cenas íntimas, o que era facilmente inevitável.

12
Mai20

La Casa de las Flores | T3 | Estranho final

Netflix

la casa das flores foto.webp

 

A terceira e aparentemente última temporada da série La Casa de las Flores chegou e conseguiu ainda baralhar mais que o conjunto de episódios da segunda temporada. Após conhecermos a família De La Mora na primeira série e de acompanharmos na segunda o desaparecimento de Virginia e tudo o que foi alterado a partir daí, na terceira temporada somos convidados a recuar ainda mais no tempo, cerca de 40 anos, para percebermos como toda a vida de Virgínia foi moldada pela própria mãe Victoria, que regressa agora à vida dos netos. No passado Victoria tudo fez para que a filha atingisse estatuto com base nas aparências, afastando-a do namorado e das relações, não correndo o entrave como esperado pela mulher controladora e que não media meios para atingir os fins. No presente a sua aparição acontece com o mesmo predicado e as coisas voltam a não correr assim tão bem. 

Acompanhando Virgínia em 1979 aquando da gravidez da primeira filha, Paulina de La Mora, as escolhas e omissões da época foram fulcrais para todo o desenvolvimento familiar e do início ao fim da temporada somos convidados a revisitar todo o processo da vida de Virgínia, onde o parecer e as aparências são mantidas. Ao mesmo tempo, o presente sucede-se e o coma de Elena, após o acidente no final da anterior temporada, acontece, com uma gravidez planeada mas desconhecida perante a família. Já Paulina enfrenta os meandros da prisão e ao mesmo tempo tem de lidar com os problemas da sua relação com Maria José. E ficam assim apresentados os três pontos base deste conjunto de episódios que baralham tanto que podiam nem ter surgido.

Primeiramente tenho a destacar pela positiva o elenco que continua fantástico, até reforçado com bons atores e que mostraram que além de talento foram escolhidos para darem nas vistas nas cenas mais quentes que esta série continua a ter, principalmente o núcleo que dá vida às personagens de 1979. Os cenários continuam a seguir a mesma linha, com umas construções que por vezes parecem inacabadas, mas melhor conseguidas, embora pequem por excesso de efeitos e cores, dando um ar muito apimbalhado, mas que acaba por ir de encontro à história que já caiu no ridículo. O que não aceito é mesmo o desenrolar da história que tinha tanto para contar se tivesse seguido a linha do guião da primeira temporada, mas algo aconteceu e tentaram inventar que desmancharam por completo o fio condutor, parecendo que muito do que é contado agora de forma forçada aconteceu pela necessidade de existir um contrato e não conseguir desenvolver a mixórdia que fizeram na segunda temporada. Este terceiro lote de episódios poderia resultar sim numa outra série somente com as cenas do passado, explicando como tinha acontecido e tendo a evolução com o tempo, não o contrário sem explicação porque este retrocesso no tempo não era de todo necessário para criar produto. Seria tão mais interessante ver a evolução da família atual, com o recurso ao espaço da florista e mesmo do cabaré sem tanta salganhada onde até um tratamento pela cura gay ocupa parte de episódios numa história do século XXI. 

20
Abr20

Madame C. J. Walker, Uma Vida Empreendedora

Netflix

AAAABV_IWhw_TFhhDndaYCqwf0CGsi1ASjw03twbJFZgGgx2Qv

 

No ano em que se assinala os 100 anos da morte de Walker, a primeira mulher americana milionária por mérito próprio, a Netflix , inspirando-se na obra literária On her Own Ground, da autoria de A'Lelia Bundles, trineta de Walker,  lança a minissérie Madame C. J. Walker, Uma Vida Empreendedora em jeito de homenagem biográfica a uma mulher revolucionária e que lutou contra preconceitos raciais e a favor do feminismo, debatendo-se perante quem se colocou e tentou interferir nos seus sonhos pessoais e profissionais.

Nascida de uma família de escravos, sendo maltratada pelo marido, sofrendo preconceito por ser negra, mal arranjada e com problemas capilares, Walker parecia uma mulher negra condenada ao fracasso quando percebe que pode lutar pela própria vida. Reunindo uma história verídica com apontamentos desnecessários de uma suposta luta de boxe, fora de contexto na época, com a rival direta de fornecimento de produtos capilares para mulheres negras, a série parece desvirtuar um pouco por misturar a inspiração com pontos de rivalidade que parecem ter sido colocados na trama somente para a tornar mais atrativa, o que me pareceu forçado, tanto como essa batalha foi demonstrada como tudo se processou até ao final, mesmo a quilómetros de distância. Não existia tal necessidade, mas esse ponto por si só não chegava para estragar esta produção que une sonhos, família, debatendo preconceitos, batalhas pessoais, confiança e valorização, sendo mal conduzida e deixando escapar factos que poderiam transformar e mostrar uma realidade mais alargada sobre a real transformação de Madame C. J. Walker em tempos de mudança.

07
Abr20

Tiger King, um bizarro documentário

tiger king.jpg

 

A Netflix lançou a série documental Tiger King, retratando a história bizarra Joseph Maldonado-Passage, ou como passou a ser conhecido, Joe Exotic, o dono de um jardim zoológico no Texas, Estados Unidos, dedicado maioritariamente a tigres. Numa história bastante bizarra entre a vida pessoal e profissional de Joe, as inimizades e conflitos com funcionários e seus adversários de outros zoos e a vida deste homem e dos que o rodeiam, tudo foi filmado em modo reality show durante anos, mesmo quando tudo tendia a descambar, para mais tarde, após o desfecho com situações trágicas, ser transformado neste documentário que tem conquistado os utilizadores da plataforma de streaming.

As compras ilegais de animais selvagens, o tratamento que é dado aos mesmos, os relacionamentos amorosos de Joe que vive um casamento gay a três, as traições, os roubos, as batalhas perante os proprietários de outros espaços semelhantes, alguma droga e armas pelo meio, comida fora de prazo para os animais que serve também para funcionários e o dinheiro envolvido entre estranhos negócios onde todos se usam para disfarçar crimes ocorridos entre o passado e o presente. Tudo isto leva a uma morte esperada e argumentada de um empresário, envolvendo investigação, prisão e reviravoltas numa vida real que podia ser uma autêntica trama cinematográfica onde a loucura e o excêntrismo parece acontecer da forma mais cruel e nojenta possível entre todos os complementos envolvidos. 

Geralmente não sou apreciador de séries documentais, mas o bizarro desta produção acaba por ser tão constrangedor que não é possível parar a meio, sendo necessário ver cada episódio em espera pelo próximo para se entender como tudo se desfaz numa sequência perante um poço bem fundo e escuro que está à vista de todos desde os primeiros instantes.