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O Informador

O frio é psicológico!

Frio

 

Andava pelos doze anos de idade, estava a frequentar o oitavo ano escolar, na Escola Básica 2/3 Pêro de Alenquer, numa aula de Geografia a uma quarta-feira gelada e logo de manhã. Uma sala fria, sem aquecimento na altura, uma turma inteira de casaco vestido e uma professora a desfilar na sala somente com um macacão de lycra vestido como se nada estivesse a acontecer.

Uma frase ficou para sempre na minha memória quando a dita professora, que fazia bons quilómetros para nos dar aquela primeira aula do dia se cansou dos queixumes sobre o gelo que se fazia sentir e proferiu, 《o frio é psicológico!》. Naquele momento todos ficamos calados, a pensar certamente que aquela mulher de lycra vestida era afinal mesmo louca por não sentir frio naquele dia. A aula prosseguiu, as semanas passaram, o ano escolar terminou e hoje, mais de duas décadas depois aquele momento não mais me saiu da memória.

Corta papel de infância

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As lembranças fazem-se sentir e acabei de me recordar de uma fase pela qual passei em criança em que as folhas da imprensa serviam como meio de entretenimento durante horas e horas, enchendo sacos e mais sacos de completo lixo.

Talvez entre os sete e os nove anos e ao longo de um período ainda justificável de meses, passei por uma fase em que todas as revistas, jornais e folhas que aparecessem por casa era guardados para serem recortados. Todos os papéis que apanhava que já não fizessem falta ficavam amontoados num canto da sala onde me entretinha várias horas por dia a cortar papel para nada. Uma folha de revista, por exemplo, cortava em modo cobra ou às tiras e depois desse trabalho inicial a tesoura continuava em funções para transformar cada tira em pequenos quadrados que se iam multiplicando em sacos e mais sacos. Podes imaginar sacos de plástico do supermercado e caixas de papelão com papéis e mais papéis cortados do tamanho de uma unha. Sim, era desse modo que transformava cada folha que apanhava.

Sei que muitos dos sacos iam para o lixo e que na altura nem ligava ao que ia fazendo e desaparecia cá de casa, mas hoje a lembrança surge e percebo que tendo um saco cheio e outro a caminho que os mais antigos iam sendo levados para o lixo, que era onde todo aquele papel devia ter sido colocado logo quando deixou de fazer falta em casa. O entretenimento que tinha nesses longos meses era cortar papel aos bocados, resultado de ser filho único, numa época sem computadores, telemóveis e afins com tudo o que existe nos dias que correm. Sei que enquanto estava naquele meu trabalho ficava calado e vivia no meu mundo fechado e por isso acabava por ser ao mesmo tempo um escape para os pais que me tinham no sossego, embora estivesse a empregar o meu legítimo tempo para nada.